Economia

20 de maio de 2014

Entrevista: Arkema investe na produção nacional

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Publicado por: Quimica e Derivados
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    Química e Derivados, Schmitt: mercado local de emulsões busca sofisticação

    Schmitt: mercado local de emulsões busca sofisticação

    Investir no Brasil requer uma dose de teimosia. São tantas as dificuldades burocráticas, tributárias e econômicas que é fácil desanimar no meio do caminho, especialmente no caso de empresas internacionais, com várias alternativas geográficas para alocar seus recursos. Mesmo assim, com uma bagagem de vários anos e muitas experiências no país, Eric Schmitt, diretor-presidente da Arkema Química Ltda., subsidiária do grupo empresarial de origem francesa, comanda um plano de investimentos iniciado em 2012, com a aquisição da planta e de parte dos negócios da Resicryl, em Araçariguama-SP. Cidadão francês, ele é um especialista em Brasil, onde está pela quarta vez, cumprindo missões distintas. A primeira se deu em 1986, quando ainda estudante de Administração de Empresas da Essec (École Supérieure des Sciences Économiques et Commerciales) veio fazer um ano de intercâmbio na Universidade de São Paulo. Logo depois de formado, voltou ao país, dessa vez para servir como funcionário do Consulado da França no Rio de Janeiro, por dois anos. Ao retornar ao país de origem, ingressou na Elf Atochem, braço petroquímico do grupo petroleiro, regressando ao Brasil como executivo, acumulando experiências no Argentina e no México. Voltou ao Brasil já como diretor-presidente da subsidiária local da Arkema, denominação assumida após a reorganização dos negócios químicos das francesas Elf e Total. Essas idas e vindas ao país lhe renderam o casamento com uma brasileira, com quem tem dois filhos, ambos nascidos aqui. Às vésperas de inaugurar um laboratório de desenvolvimento de produtos e assistência técnica aos clientes, ao lado da fábrica local de resinas acrílicas, Schmitt concedeu uma entrevista a Química e Derivados no escritório central da Arkema Química, no elegante largo de Moema, na capital paulista.

    Química e Derivados – Essa relação profunda que o sr. mantém com o Brasil pode ser a explicação para esses investimentos?
    Eric Schmitt – De forma alguma. Na verdade, foi a equipe da Coatex, empresa especializada em aditivos e emulsões acrílicas especiais adquirida pela Arkema em 2007, que indicou a compra de parte da Resicryl, tanto que o nome mantido até hoje nessa unidade é o da Coatex. Naquela época, quarto trimestre de 2012, o Brasil vinha acumulando uma sequência de aumentos impressionantes no PIB, coisa de 7% ao ano, enquanto a Europa estava em recessão. Eu até avisei que o Brasil era assim mesmo: anos de crescimento rápido são sempre seguidos de anos de estagnação. Mas o investimento foi feito e estamos indo muito bem.

    QD – O sr. é um expert em Brasil. Como foi a sua adaptação ao nosso curioso modo de conduzir a economia?
    E.S. – Foi um choque. Cheguei aqui como estudante, em 1986, sem falar Português, em meio ao Plano Cruzado. A primeira expressão que aprendi foi “não tem”. Era só isso que ouvia quando ia fazer compras. Claro que tinha, mas o preço não era o oficial, aquele da tabela divulgada pelo governo. Para um estrangeiro, era uma loucura. Depois, com o tempo, fui me acostumando.

    QD – Como o sr. escolheu o Brasil para o ano de estudos?
    E.S. – O curso na Essec permitia um ano de intercâmbio em outro país. Naquela época, a maioria dos meus colegas queria ir para a Ásia. Era o fenômeno do momento, com forte crescimento na Coreia e na China. Eu preferi conhecer o Brasil, a escola tinha e ainda tem um convênio com a USP. Foi uma experiência muito proveitosa. Gostei tanto que voltei para cá alguns anos depois, para trabalhar no consulado francês no Rio, como forma alternativa de cumprir o serviço militar obrigatório.

    QD – Do seu ponto de vista, como executivo de um grupo internacional, vale a pena investir no Brasil?
    E.S. – Vale a pena, com certeza. O Brasil tem um potencial imenso para negócios, embora tenha falhas muito grandes em infraestrutura, moradia, burocracia, impostos e outras coisas. Não quero parecer muito crítico ou pessimista, mas a parte tributária daqui é um pesadelo. Lá fora ninguém entende a complexidade do sistema e a quantidade de mudanças que acontece a toda hora. Também o sistema judicial brasileiro é assustador, pois as decisões demoram muito e os custos são elevados, isso gera uma incerteza muito grande. E tem a burocracia, papéis que precisam ser carimbados aos montes, uma coisa muito atrasada. Na parte química, além disso, falta acesso às matérias-primas, e algumas cadeias produtivas têm lacunas importantes. Por isso, a importação aumenta.

    QD – Essas fragilidades colocam o país em uma posição ruim na hora de direcionar investimentos?
    E.S. – Sim. Ainda mais agora que outros países mostram vantagens em matérias-primas e mão de obra, como os Estados Unidos, com o shale gas, e a Ásia. O Brasil está perdendo terreno. Além disso, o grau de intervenção oficial na economia ainda é muito grande. Às vezes, isso é até desejável, mas não por muito tempo. No longo prazo, essa intervenção cria distorções que atrapalham os negócios.


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