Economia

4 de abril de 2001

Crise elétrica agrava déficit químico

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    s indústrias química e petro­química deverão reduzir 20% de seu consumo de eletricidade, e a de soda-cloro, 25%, a partir de junho, toman­do por base a média de consumo registrada nos meses de maio a julho de 2000, por decisão oficial, publicada no dia 25 de maio. O menor supri­mento de eletricidade provocará a parada das linhas produtivas, única forma de se atingir a meta estabe­lecida. A decisão oficial isenta o setor industrial das sobretarifas e multas, mas o não atendimento aos cortes indicados implica desligamento ime­diato do fornecimento de eletricidade.

    Química e Derivados: Crise: Penna - setor de soda-cloro retrocederá dez anos.

    Penna – setor de soda-cloro retrocederá dez anos.

    A Associação Brasileira da Indús­tria Química (Abiquim) divulgou nota na qual menciona que o corte de eletricidade para o setor agravará o desequilíbrio da balança comercial de produtos químicos, que apresentou déficit de US$ 6,5 bilhões (FOB) em 2000. Além disso, por operar unidades de funcionamento contínuo, a intro­dução de paradas mais freqüentes acarretará aumentos dos custos, pela produção de itens fora de especifi­cação durante as operações de religamento.

    A imposição de um porcentual de redução de consumo, porém, ainda é alternativa melhor do que os “apa­gões”, cortes totais e abruptos de eletricidade, que poderiam causar danos irreversíveis às instalações, como a perda de caríssimos catalisa­dores, além de provocar risco de explosões. De qualquer forma, a Abiquim ressalta que as indústrias associadas já ajustaram seus proces­sos e fábricas para consumir o mínimo indispensável de eletricidade, muitas delas tendo, inclusive, investido em sistemas de co-geração . Apesar disso, o setor ainda é dependente do forne­cimento de eletricidade das geradoras.

    “A autogestão é a melhor maneira para superar a crise energética”, afirmou Martim Afonso Penna, dire­tor-executivo da Abiclor. Tendo participado da comissão de racio­namento de eletricidade do Nordeste, entre 1987 e 1988, Penna pôde verifi­car o sucesso desse sistema, tendo sido atingidos os objetivos propostos (15% de redução de consumo). “Além disso, é possível promover um alinhamento entre as geradoras e as consumidoras para reduzir a demanda nos horários mais críticos”, disse.

    O setor de soda-cloro já havia verificado a tendência oficial de exigir maiores reduções de demanda por parte das indústrias eletrointensivas, conforme sugerido pelo diretor da Agência Nacional de Petróleo, David Zylbersztajn, e pelo físico e professor José Goldemberg. A Abiclor parti­cipou de reuniões com representantes oficiais, sempre tentando manter o porcentual de redução abaixo dos 20% estipulados para a população em geral.

    O anúncio desapontou o dirigente. “Quem defende o corte maior para as eletrointensivas não tem idéia do que representa diminuir a produ­ção de produtos como soda-cloro e sua repercussão em todas as cadeias produtivas, com efeitos até no saneamento básico”, criticou Penna.

    Química e Derivados: Crise: grafico07.A Abiclor encomendara um estu­do à Fundação Getúlio Vargas para avaliar os efeitos da redução do fornecimento de eletricidade ao setor, com porcentuais de corte variando de 2,5% a 25%. Em visão ampliada, abrangendo toda a indústria brasi­leira sujeita à redução de 20% no consumo de eletricidade, a FGV estimou perda de R$ 14 bilhões na arrecadação federal, com queda de dois pontos percentuais na estimativa oficial de crescimento do PIB (estima­do em 4,5%), além de corte ou não-implementação de 856 mil empregos. A balança comercial nacional ficaria ainda mais negativa, com déficit agravado em US$ 1,6 bilhão, en­quanto a produtividade industrial do País cairia 1,5%. O total de impostos arrecadados no País sofreria redução de R$ 6,6 bilhões, dos quais 30% correspondem ao ICMS que alimenta estados e municípios.

    Especificamente para o setor de soda-cloro, o estudo da FGV, citado por Penna, apontou os reflexos diretos de cortes energéticos de 15% a 25%. Na melhor dessas hipóteses, o setor deixaria de fabricar 94,4 mil t de soda e cloro, com perdas acumuladas de US$ 54 milhões. Já na pior hipótese, a adotada pelo governo federal, a produção deverá ser reduzida de 160 mil t, provocando perdas de US$ 92 milhões. “Voltaremos ao nível de produção registrado em 1991, ou seja, teremos um retrocesso de dez anos”, criticou Penna.


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