Couro e Curtumes

2 de março de 2004

Couro I: Curtumes buscam nichos em porcos, jacarés e cavalos

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Publicado por: Fernando C. de Castro
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    Há segmentos processando couros fora do mercado de 35 milhões de peles bovinas esfoladas no Brasil em 2003. De qualquer forma, geram empregos, envolvem tecnologias diferenciadas e se colocam como alternativas. Revelam o espírito empreendedor de gente que trabalha quase no anonimato.

    Química e Derivados: Couro I: Fritsch - couro suíno é mais resistente e ainda mais leve.

    Fritsch – couro suíno é mais resistente e ainda mais leve.

    Em Getúlio Vargas, a 350 quilômetros de Porto Alegre-RS na divisa com Santa Catarina, o Curtume Riograndense mantém a tradição de processar pele de porco. Segundo o gerente técnico do empreendimento, Nilvo Valdir Fritsch, a empresa já esteve praticamente paralisada, anos atrás, mas com o seu retorno da China onde montou um curtume para industriais de calçados norte-americanos, os proprietários do Riograndense decidiram contratá-lo para colocar a planta em operação novamente.

    De cara, a reativação criou 70 novos empregos na região. Chegaram a experimentar outras matérias-primas, mas após montarem uma rede de fornecedores de pele de porco decidiram manter o foco em cima de sua vocação inicial.

    A crise nos curtumes de pele suína chegou há 15 anos, quando 30 empresas operavam com o material. O motivo foi o surgimento da nova tecnologia desenvolvida para retalhar o animal mantendo a pele junto com a carne, derrubando a oferta de couro. Os empresários mais capitalizados migraram para o curtimento de couro bovino. Como os fulões, maquinário indispensável nesta indústria, variam conforme o tamanho da pele – a do porco só tem 1 metro quadrado – os menos aquinhoados simplesmente fecharam por não conseguirem trocar o equipamento.

    No Riograndense, houve negociação com criadores da região norte do Rio Grande do Sul e oeste de Santa Catarina. Eles abastecem o curtume. O couro retirado do porco é mais macio em comparação com o bovino, mas a grande quantidade de gordura modifica um pouco o processo exigindo duas etapas no caleiro, onde é necessário provocar reações químicas mais fortes, pois quando sobra gordura na pele o resultado é um produto exalando odores indesejáveis para peças de vestuário ou acessórios.

    Enquanto nessa etapa inicial o couro de boi fica 24 horas o do porco fica três dias. Basicamente a gama de produtos químicos é a mesma, cromo no curtimento, recurtentes, corantes, pigmentos, resinas, vernizes, dependendo da aplicação para a qual a pele está destinada. O mercado interno absorve toda a produção do Riograndense e para cobrir a demanda a empresa importa matéria-prima principalmente da Rússia e do Japão, somente salgada e acomodada em contêineres. A produção é de 1 mil e 200 toneladas ano.

    A pele de porco é bem mais leve. “Se pegar 0,6 milímetros de uma mesma metragem de couro de porco e de gado, o peso específico é menor”, explica Fritsch. Além disso, é um material mais resistente. “Uma pele entre 0,6 e 0,8 milímetros de couro suíno pode servir para revestir um sofá. A de boi com a mesma espessura rasgaria”, ensina o químico com especialização na Escola de Curtimento de Estância Velha-RS. O couro suíno é muito utilizado também na forração interna dos calçados, por ter maior capacidade de absorção do suor, decorrente de sua alta porosidade. O preço também é diferenciado. Se confeccionar um mesmo modelo de bolsa com os couros de boi e de porco, a segunda terá preço mais alto.

    O mercado cativo do couro acabado em Getúlio Vargas é o Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, e em São Paulo, as cidades de Birigui Jaú, Franca, além de São João Batista em Santa Catarina. Há ainda os novos centros produtores de calçados da Bahia, Brasília e na região metropolitana de Fortaleza. O produto serve também para o revestimento de móveis, capas de agendas, carteiras porta-jóias. Certa feita uma decoradora adquiriu uma quantidade significativa de couro de porco em retalhos de diversas cores do Riograndense. O material foi transformado nas cortinas da mansão do ex-campeão da Fórmula 1 e da Indy, Emerson Fittipaldi, em Miami, Estados Unidos.

    A especialização da mão-de-obra para curtir couro suíno acontece dentro do curtume. Segundo Fritsch, as escolas de curtimento passam apenas uma visão geral, pois o foco dos cursos é a preparação da matéria-prima proveniente do rebanho bovino. “A rotatividade da mão-de-obra é pequena porque couro é resultado de um processo físico-químico à base de produtos, temperatura e pressão e o couro de suínos tem suas particularidades”, finaliza o gerente técnico.

    De cavalo – Outra pele em ascensão no mercado interno é a de eqüinos. Atualmente cinco frigoríficos entre o Paraná e Goiás abatem cavalos com produção em escala. Um dos principais compradores é a Esse & Jota Comercial, especializada na exportação e importação de couro natural de Novo Hamburgo-RS. A pele do animal é considerada uma das mais requintadas e se presta a peças de vestuário e à forração de estofados para automóveis.

    A empresa compra a pele em estado wet-blue e terceiriza as etapas de recurtimento e de acabamento em curtumes do Vale dos Sinos, de acordo com as especificações exigidas dos clientes, em grande parte grifes famosas e butiques da região dos Jardins, em São Paulo, onde prolifera o comércio de confecções para as classes de maior poder aquisitivo. Ali o couro de eqüino chega na forma de roupa, calçados e bolsas. O consumo diário é na base de 300 esfolas por dia. Assim como a carne de porco, a de cavalo também é rica em gordura, exigindo reações químicas mais complexas para remover a graxa da pele.


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