Couro e Curtumes

5 de outubro de 2004

Couro: Clientes europeus exigem tirar cromo do curtimento

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Publicado por: Fernando C. de Castro
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    Técnicos da subsidiária brasileira do grupo argentino Calarcá apresentaram no último dia 4 de setembro, em Erechim, no norte do Rio Grande do Sul, os novos parâmetros de processamento dos couros consumidos no continente europeu, em especial, para os curtumes interessados em abastecer o emergente mercado de revestimento dos estofamentos e das áreas internas dos automóveis montados nos países da região do euro. Quem quiser vender peles com essa finalidade não poderá mais produzir o material a partir dos couros curtidos em sulfato de cromo, popularmente denominados wet blue. A rigorosa legislação ambiental européia vem privilegiando a produção do couro wet white, précurtido por glutaraldeídos e posteriormente curtidos e recurtidos em extratos vegetais de tanino.

    No Brasil, a Calarcá opera com os produtos importados a partir da Schill+Seilacher, grupo alemão, com knowhow de mais de 30 anos no desenvolvimento do couro ecologicamente correto. “Como todos sabemos o curtimento vegetal é um dos processos mais antigos, mas sempre foi muito convencional e estático, em certos períodos da sua evolução, tendo como resultado artigos duros e pouco maleáveis”, disse o equatoriano Daniel Guerreiro Burneo da área para assistência técnica ao cliente da Calarcá. Segundo Burneo, o wet white começou a nascer em 1970, quando o governo alemão passou a alertar os curtumes sobre a necessidade de buscar alternativas tecnológicas ao sulfato de cromo.

    Naquele ano, surgiu nos laboratórios da Schill a idéia de produzir uma formulação química capaz de promover a evolução do processo de curtimento dos couros com extratos vegetais, mediante um processo de précurtimento com o glutaraldeído, buscando um artigo mais macio e maleável, além de diminuir o tempo e a dosagem dos curtentes. Os testes realizados em laboratórios da empresa alemã sempre apresentaram bons resultados, inclusive em simulações dentro de curtumes conveniados.

    Num primeiro momento, informou Burneo, os pesquisadores projetavam a rejeição do produto no mercado, mas na tentativa de encontrarem uma saída comercial, partiram também para os experimentos com o précurtimento e posteriormente curtimento em sais de cromo. A partir daí, em 1974, nasceria o conceito wet white (branco molhado), também denominado “processo para economia de cromo” (chrome saver). Basicamente, a idéia era melhorar a eficiência da absorção do sulfato de cromo e diminuir seu consumo e o despejo do metal pesado na estação de tratamento de efluentes. Foi assim que o glutaraldeído chegou ao mercado com nome convencional Derugan.

    Com o passar do tempo, os curtumes com prioridade em curtimento vegetal demonstraram mais interesse no processo, principalmente aqueles direcionados à fabricação de couro para solados. Porém, a partir do final dos anos 90, a indústria automotiva européia começou a impulsionar o couro wet white para ser curtido em extrato vegetal e buscando cada vez mais a retirada do sulfato de cromo do processo industrial. Em 2000, os donos de curtumes da União Européia passaram a ouvir boatos de novas leis ainda mais severas contra o emprego do cromo nos couros para estofamento dos carros produzidos na União Européia. Continuam na expectativa quanto à aprovação, até o começo de 2006, de uma lei obrigando as montadoras a recolherem os carros trocados por modelos novos, para incinerar as peças não recicláveis.

    Química e Derivados: Couro: Burneo - wet white elimina problema com resíduos. ©QD Foto - Fernando de Castro

    Burneo – wet white elimina problema com resíduos.

    A vida média de um automóvel na Europa é de oito anos. Como os carros naquele continente são baratos, o mercado de segunda mão praticamente inexiste. Quando um consumidor adquire um veículo, simplesmente abandona o antigo em qualquer lugar, mas isso vem sendo coibido pela legislação, a qual cada vez mais compromete os fabricantes com o desmanche, o descarte e a solução ambiental de cada peça e componente. Caso a nova lei entre em vigor, ao comprar um carro novo o consumidor deverá entregar o antigo para o fabricante desmanchar. E, se existe uma substância que ninguém quer ver incinerada e presente na atmosfera européia, são os sais de cromo.

    A Schill+Seilacher tem especial interesse no mercado brasileiro porque com a descoberta da vocação do couro nacional para a confecção de estofamentos, as encomendas por parte da indústria automotiva européia deverão abrir espaço às exportações, mas os couros deverão estar livres de sais de cromo. Quanto ao Derugan, tratase de glutaraldeído modificado, vendido nas formulações 3080 e 3020, livre de formaldeídos e produtos orgânicos voláteis, esses também em fase de banimento na Europa, mas tolerados nos Estados Unidos e na América do Sul.

    Mesmo para aqueles curtumes que precisam curtir o couro em cromo e não estão interessados no exigente mercado europeu, Burneo aconselha a adoção do sistema wet white porque no momento do rebaixamento da pele com lixas o pó resultante não terá resíduo sólido de cromo:

    “O grande problema do cromo são as partículas sólidas. Se você aplicálo depois do couro rebaixado, os resíduos ficarão em estado líquido e poderão passar por tratamento nas estações de efluentes dos curtumes”, defendeu o técnico.

    Outra vantagem do wet white é a possibilidade de reaproveitamento de seus resíduos. Estudos recentes revelaram o produto como um bom nutriente nas rações para porcos e cães. Além disso, estudos realizados na Alemanha classificaram as raspas do wet white como excelente fertilizante de nitrogênio orgânico para culturas agrícolas e hortigranjeiras, verduras e plantas decorativas. A Calarcá é uma empresa argentina, com matriz em Buenos Aires. A empresa produz uma linha completa de produtos para curtume, da ribeira ao acabamento. Está presente no Brasil há cinco anos em Estância VelhaRS e FrancaSP. Suas linhas de produtos mais importantes são os óleos para engraxe do couro, óleos à base de peixe, lecitina, sulfatados, sulfitados, sintéticos, parafinas, entre outros.



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