Economia

6 de outubro de 2001

Corantes: Mercado da cor prioriza preço baixo

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    Corantes e pigmentos perdem rentabilidade e sofrem os efeitos da globalização, que fechou fábricas no Brasil para concentrar negócios na Ásia, enquanto a tecnologia de aplicações evoluiu a ponto de reduzir o consumo desses insumos

    Química e Derivados: Corantes: Ilustração - Martinez.

    A

    produção brasileira de corantes e pigmentos reflete com clareza os efeitos da globalização de negócios e da instabilidade econômica local. Obediente ao cânone de produzir apenas as linhas nas quais seja absolutamente eficiente, complementando a oferta por meio de importações, o setor apresentou dramático fechamento de unidades produtivas, enquanto verifica participação crescente de produtos estrangeiros.

    Em âmbito mundial, já se consolidou a transferência da produção da Europa, tradicional centro produtor de insumos básicos sintéticos do setor, para a Ásia, em especial para China e Índia, os novos líderes dos corantes têxteis e pigmentos inorgânicos. Apenas as valiosas especialidades permanecem na origem, embora sem o mesmo apelo do passado que lhes justificava orçamentos polpudos de pesquisa e desenvolvimento. A palavra de ordem agora indica rentabilidade para os investidores, a prazos mais curtos.

    Química e Derivados: Corantes: Falzoni - corantes passam por processo de commoditização.

    Falzoni – corantes passam por processo de commoditização.

    Nesse panorama, o Brasil teve algumas condições para disputar com os asiáticos a “hospedagem” de sítios produtivos mundiais. “Mesmo nos corantes reativos e diretos, perdemos a oportunidade por terem faltado condições para produzir na escala suficiente”, comentou Jandyr Falzoni, coordenador do comitê de corantes e pigmentos da Abiquim e diretor-técnico da Enía, produtora de corantes no Brasil desde 1924, controlada a partir de 1988 pela holding Norquisa.

    Não fossem essas dificuldades, o País, por ser tradicional usuário de fibras naturais, com destaque para o algodão, poderia ter se tornado referência mundial nas linhas dos reativos e diretos, os mais indicados para tingir esses materiais. Na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, o uso de fibras sintéticas predomina, impulsionando a demanda por outras famílias de produtos. “De 1995 para cá, dos 18 produtores de corantes e pigmentos no Brasil, só restaram nove”, disse Falzoni.

    Pelo menos para a DyStar, gigante mundial em corantes têxteis que reuniu as linhas da Hoechst, Bayer, Basf e Zeneca (ICI), a posição fabril no Brasil se destaca nos reativos, com a ressalva do fechamento de unidades em 2001. “Manteremos apenas a fábrica de Suzano-SP [no sítio da Clariant] em operação”, disse o gerente de marketing para a América do Sul Laércio Ferragina. As instalações de Jacareí-SP foram fechadas em fevereiro, enquanto as de Guaratinguetá-SP encerram atividade em novembro.

    “Só temos competitividade mundial nos corantes reativos vinilsulfônicos, a linha Remazol da antiga Hoechst”, explicou. Atualmente, as condições de mercado não justificam produzir, por exemplo, corantes dispersos em capacidades inferiores a 15 mil t/ano, segundo Ferragina. As produções descontinuadas serão transferidas para outras unidades da DyStar, principalmente na Ásia e também na Alemanha.

    Química e Derivados: Corantes: Ferragina - só alguns reativos mantém competitividade.

    Ferragina – só alguns reativos mantém competitividade.

    “Houve uma ‘commoditização’ dos corantes. Durante anos o mercado selecionou as linhas de menor custo, exigindo produção em larga escala”, disse Falzoni. Esse processo começou na década de sessenta, no Japão, sucedido pela indústria coreana e de Taiwan. Atualmente, chineses, indianos e tailandeses atuam com força no mercado, mas é possível imaginar nova onda de transferências. “Egito e África do Sul já contam com produção própria a preços interessantes”, afirmou.

    A seleção geográfica teria sido impulsionada também pelo aumento das pressões ambientais nos países desenvolvidos. “Isso não é mais verdade, pois mesmo a China e a Índia já estão adotando padrões internacionais de proteção ambiental”, comentou Falzoni. Segundo verificou, na China o tratamento de efluentes é feito em instalações estatais, enquanto na Índia algumas fábricas de corantes e pigmentos foram fechadas por serem poluentes. O Brasil já segue legislação restritiva há anos. “A construção da fábrica da Enía, em Itupeva-SP, começou pelo tratamento de efluentes de projeto avançado para a época, com segregação de fluxos, que até hoje serve de exemplo”, disse.

    A seleção pelo baixo preço inibiu desenvolvimentos técnicos recentes e restringiu o mercado de algumas linhas. “Os corantes à tina, mais caros, só são usados quando se precisa de alta solidez”, explicou. No mais das vezes, segundo ele, os reativos são preferidos, por aliarem preço baixo com uso rápido e bom desempenho. “Não há novidades nesse mercado; hoje se procura melhorar o que já existe, principalmente para melhorar a aplicação”, comentou. Como comprovação, citou a notável redução de verbetes de cor no disponíveis Colour Index.

    A própria Enía, pioneira na América Latina, deixou de operar com pigmentos e passou a revender corantes têxteis asiáticos, mantendo produção própria para couros e papel. Ainda assim, alguns materiais básicos são importados. “Como os corantes são iguais para todos, a diferenciação se dá no serviço prestado ao cliente”, afirmou Falzoni, relatando avanços na tecnologia de tingimentos, especialmente em automação e instrumentação de processos. Cabe aos vendedores-técnicos resolver problemas de aplicação, o que implica absorver custos de pós-venda. “O problema é manter a rentabilidade”, disse.


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      Um Comentário


      1. Em 2001,eu era operador especializado da empresa Dystar em Jacareí SP.Conhecia tudo sobre corantes,cores,e secagem final(spray).Ainda me lembro bem do anúncio do fechamento da unidade que me deixou muito abalado.Com certeza nunca vou esquecer a empresa,mas já superei a perda.Um abraço a todos que fazem parte das unidades espalhadas pelo Brasil.



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