Química

24 de maio de 2010

Água – Companhias de saneamento deixam sem controle os cancerígenos trihalometanos

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Publicado por: Marcelo Furtado
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    ara os críticos da Química, saber da importância dela para manter o abastecimento de água das cidades deveria ser uma espécie de revelação para se abandonar o ecologismo xiita e infanto-juvenil. Afinal de contas, de que outra maneira seria possível preparar para o consumo adequado de milhões e milhões de litros por dia de água provinda de mananciais poluídos? Ou como se garantiria seguramente desinfetado o abastecimento, ao longo da complexa distribuição, mesmo se a captação partisse de um riacho bucolicamente cristalino? Sem a ajuda de coagulantes e polímeros para separar e remover as partículas de sujeira, cloro, outros desinfetantes e produtos auxiliares para eliminar contaminantes e garantir a potabilidade, o objetivo diário de garantir hidratadas bilhões de pessoas por todo o mundo seria apenas mais uma utopia humana.

    Está certo que o mundo ideal seria se esse tratamento químico da água de abastecimento fosse feito da forma mais racionalizada possível, com o emprego de produtos menos agressivos ao meio ambiente e ao consumo humano, em volumes reduzidos e que gerassem o menor nível de subprodutos prejudiciais. E é nesse sentido que as discussões devem caminhar, na busca pelo estado da arte da química essencial para tratar a água. Essa necessidade, no caso brasileiro, torna-se ainda mais urgente, visto que o Brasil engatinha nessa área, o que pode ser até compreensível em um país onde não há a universalização dos serviços de água e esgoto. Embora haja iniciativas isoladas, em companhias de saneamento mais avançadas, que demonstram preocupação com os temas atuais da química do saneamento, as companhias brasileiras ainda optam pelos tratamentos convencionais e não levam muito em conta algumas tendências globais.

    Um exemplo do atraso brasileiro diz respeito a uma questão muito debatida e consolidada internacionalmente, a do controle sobre os trihalometanos (THMs), compostos orgânicos presentes na água tratada em virtude da presença de cloro e que sob longa exposição são considerados cancerígenos. Mesmo sabendo que o assunto é antigo, e até originou artigo em portaria do Ministério da Saúde (518/2004), pelo qual se determina o limite de trihalometanos total de 0,1 mg/l, são poucas as companhias de saneamento que realmente levam a sério a portaria e controlam esses parâmetros com o uso de tecnologias para prevenir a formação das substâncias.

    Perigo na água tratada – A preocupação com os THMs surgiu há trinta anos nos Estados Unidos, quando a agência ambiental daquele país (EPA) publicou estudo em que analisava mais de cem sistemas de abastecimento tratados com grandes dosagens de cloro para combater a crescente poluição hídrica. Nesta pesquisa, foram levantadas as concentrações de 27 compostos orgânicos suspeitos de causar problemas de saúde, dos quais quatro trihalometanos acabaram por ganhar pior destaque em razão da alta presença e do risco: o triclorometano (clorofórmio), bromodiclorometano, dibromoclorometano e tribromometano (bromofórmio).

    Química e Derivados, Sidnei Lima Siqueira, Coordenador do setor de ETAs da Sanasa, Água - Companhias de saneamento deixam sem controle os cancerígenos trihalometanos

    Siqueira: adição de amônia ao cloro trata água com segurança

    Essas substâncias são derivadas do metano (CH4), em cuja molécula três de seus quatro átomos de hidrogênio foram substituídos por igual número de átomos de elementos halógenos (cloro, bromo e iodo). A troca pode ocorrer por uma só classe de halógenos, como no triclorometano e no clorofórmio, por dois tipos (bromodiclorometano) ou ainda pelos três (iodobromoclorometano). Para a formação dos compostos, não basta a oxidação na água por cloro livre, mas também se faz necessária uma condição propícia, que inclui a presença de ácidos húmicos e fúlvicos, substâncias derivadas da decomposição da matéria orgânica vegetal, com estruturas aromáticas heterocíclicas, grupos carboxila e nitrogênio (algas ou outros vegetais comuns em rios e lagos). Esses ácidos gerados pelo húmus são os chamados precursores de THMs, que só agem em conjunto com o desinfetante em estado livre.

    Assim como a comunidade científica tem pleno conhecimento do problema (por exemplo, sabe-se que há relação entre clorofórmio e carcinomas de bexiga e intestino), também já existe farta ciência de como controlar a formação das substâncias para enquadrá-las em no máximo a 100 ppb na água de consumo. A frente de pesquisa e desenvolvimento mais conhecida é a busca de novas alternativas de desinfecção, o que precisa ser muito bem estudado para não se adotar técnicas menos eficientes de proteção microbiológica e levando-se em conta que por lei a água tratada ainda precisa conter oxidante residual (basicamente o cloro) para mantê-la protegida de contaminações. Mas há também outras frentes de trabalho como as que envolvem mudanças na coagulação, com sistemas capazes de remover os precursores húmicos e fúlvicos dos THMs, com a vantagem de não precisar substituir o eficiente e mais barato cloro.

    As alternativas mais comuns, no referente à desinfecção, são utilizar tecnologias como o dióxido de cloro, a cloroamoniação, o ozônio e a radiação ultravioleta, sendo estas duas últimas restritas a algumas aplicações por não conseguirem manter a água protegida de contaminações durante a distribuição. Já nos dois primeiros casos há muita experiência prática pelo mundo, sobretudo na Europa e Estados Unidos, onde essas técnicas são comuns. No Brasil, a grande maioria das estações usa apenas o cloro livre para o tratamento, o que se depreende daí que o assunto não recebe a mesma atenção da sociedade. Casos pontuais, porém, servem de modelo para possíveis interessados.


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