Economia

17 de abril de 2014

Carta aberta: Química européia teme extinção

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Publicado por: Quimica e Derivados
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    Química e Derivados, Ratcliffe: Bruxelas nada faz contra a invasão de produtos asiáticos

    Ratcliffe: Bruxelas nada faz contra a invasão de produtos asiáticos

    A Ineos é uma das maiores indústrias químicas do mundo, com faturamento anual da ordem de US$ 43 bilhões, obtidos em 15 áreas de negócios que se estendem dos termoplásticos às especialidades químicas. Opera 51 fábricas em onze diferentes países, com alto grau de integração vertical e pesados investimentos em pesquisas.

    A companhia é presidida por Jim Ratcliffe, com 38 anos de experiência no setor químico, atuando na Ineos desde 1998. Ele começou sua carreira na Exxon Chemicals, passando pela Courtalds (têxteis), da qual partiu para a Advent e posteriormente para a Inspec, antes da atual posição.

    Ratcliffe está profundamente preocupado com o futuro da indústria química na Europa, continente que abriga grande parte de seus ativos operacionais. Por isso, ele divulgou no dia 7 de março uma carta aberta a José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia, na tentativa de sensibilizá-lo para os problemas setoriais.

    Ao ler a carta, Química e Derivados percebeu que seus fundamentos e queixas são idênticos aos do setor químico brasileiro. Decidimos, então, publicá-la, esperando que seja recebida com atenção pelas autoridades brasileiras. Segue abaixo seu texto integral traduzido, que pode ser lido na língua original no site da Ineos (www.ineos.com).

    “Caro Presidente Barroso,

    Gostaria de expressar as minhas mais profundas preocupações sobre o futuro da indústria química europeia. Tristemente, prognostico que grande parte dela estará fechada dentro dos próximos dez anos.

    Eu lembro que a extinção da indústria têxtil europeia ocorreu diante dos meus olhos, como um jovem graduado na Courtaulds , durante os anos 80. Os produtos químicos podem seguir pelo mesmo caminho. A indústria química pode se tornar um outro dinossauro europeu.

    Entretanto, produtos químicos são um tipo mais amplo e possivelmente mais importante para a economia europeia. Há muitos trabalhadores envolvidos: mais de um milhão de empregos diretos e 5 milhões de indiretos, no total.

    Em escala global, o setor químico representa um faturamento de US$ 4,3 trilhões. Isso é maior que o PIB da Alemanha e supera consideravelmente os US$ 2,6 trilhões do setor automotivo.

    Na Europa, produtos químicos e automotivos dividem a primeira posição do faturamento regional, com US$ 1 trilhão cada um. Em termos econômicos, o setor químico é uma das joias da coroa europeia.

    Os produtos químicos literalmente encontram seu caminho em todos os modos de vida, eles são onipresentes. É preciso usar químicos para fazer metais, fibras e cerâmica. Eles estão nos nossos relógios, desodorantes, iPhones, carros, roupas e tênis Nike. Sem uma indústria química, todos os fabricantes citados situados na Europa ficam potencialmente em desvantagem.

    Estrategicamente, e economicamente, nenhuma grande economia deve abandonar sua indústria química.

    Mas a Europa parece descrente sobre o destino do seu setor químico. A indústria têxtil europeia foi varrida porque não conseguia competir com o custo do trabalho asiático. Lentamente, as cem fábricas têxteis se tornaram deficitárias e foram fechadas.

    Produtos químicos dependem de energia e de matérias-primas a custos competitivos. Ainda que seja uma indústria altamente técnica, e esse é um dos motivos pelos quais historicamente a Europa tem alcançado tanto sucesso, o domínio tecnológico apenas não a salvará.

    A energia, na forma de gás, hoje, é três vezes mais cara na Europa do que nos Estados Unidos, enquanto a eletricidade custa 50% a mais. Não há matérias-primas baratas na Europa. Os custos de matérias-primas nos EUA e no Oriente Médio estão em outra categoria.

    O shale gas nos EUA transformou tanto a sua competitividade quanto a sua confiança. Há US$ 71 bilhões de projetos de expansão petroquímica anunciados no fluxo do shale gas para o setor químico. E há previsão de aumentar esse valor para US$ 100 bilhões.

    Em sentido oposto, a Europa anuncia fechamento após fechamento.

    No Oriente Médio, capacidades continuam sendo construídas em Abu Dhabi, no Qatar, e na Arábia Saudita, e agora podemos adicionar outras 6 milhões de t/ano de capacidade de eteno do Irã voltando ao planeta Terra.

    No Reino Unido (UK) nós presenciamos o fechamento de 22 fábricas químicas desde 2009. E nenhuma construção nova.

    E, então, temos a China. Parece que as universidades britânicas não mais terão lugares para britânicos que queiram fazer estudos em temas tecnológicos, uma vez que estão cheias de estudantes chineses. No ano passado, na graduação do meu filho em economia, reparei nos orgulhosos formandos de engenharia elétrica. Todos eles eram chineses. Nenhum era britânico.


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