Petróleo & Energia

16 de março de 2009

Biodiesel – Governo estuda antecipar metas para reanimar os produtores

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    Química e Derivados, Reator produz biodiesel no centro de pesquisas da Petrobras, Biocombustíveis

    Reator produz biodiesel no centro de pesquisas da Petrobras

    Produto da esterificação de ácidos graxos de origem vegetal ou animal com um álcool, geralmente o metílico, o biodiesel caiu nas graças dos investidores e produtores nacionais, a ponto de justificar a antecipação das metas estipuladas na Lei 11.097, de janeiro de 2005. A capacidade produtiva do éster puro (o B100) autorizada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) supera a marca de 3,8 bilhões de litros anuais, muito mais que os 2,4 bilhões de litros projetados para abastecer o mercado de diesel com 5% de éster incorporado, formando a mistura B5.

    Embora as contas de oferta e demanda mostrem um panorama tranquilo, a realidade é menos animadora. Parte das unidades autorizadas pela ANP simplesmente não consegue obter o éster dentro das especificações técnicas oficiais estabelecidas pela mesma agência. Outra parte atinge a qualidade esperada, porém seus indicadores econômicos desaconselham a botar os reatores em operação. Apesar disso, o mercado vem sendo abastecido com a mistura B3 desde junho de 2008, com um consumo médio de 1,5 bilhão de litros de biodiesel puro por ano. A mistura B4 estava prevista para entrar em vigor a partir do segundo semestre deste ano, mas poderá ser antecipada para abril, dependendo de aprovação oficial. Isso representará uma demanda próxima de 1,9 bilhão de litros/ano do B100. Na letra da lei, o prazo máximo para a adoção do B5 estava marcado para 2013, mas poderá ser aplicado na segunda metade de 2010.

    A antecipação soa como boa música aos ouvidos dos produtores. No ano passado, segundo a ANP, foram produzidos 1,2 bilhão de litros do éster no país, volume suficiente para fazer do Brasil o terceiro maior produtor – e também consumidor – de biodiesel, sendo superado apenas pela líder Alemanha e pelos Estados Unidos. O volume também evidencia uma ociosidade no parque produtor da ordem de 70%.

    Os preços recebidos pelo éster refletem a situação. A comercialização do produto está sendo feita por meio de leilões comandados pela ANP. A agência estipula um teto e os produtores oferecem lances para suprir lotes previamente determinados, vencendo quem pedir o menor preço. O leilão de 27 de fevereiro, por exemplo, comercializou 315 milhões de litros e tinha R$ 2,60/kg (quase R$ 2,36/l) como teto. O preço médio verificado ao final do certame ficou em R$ 2,15/litro, um deságio de 8,72%. Houve críticas à participação da Petrobras Biocombustíveis (PBio), subsidiária integral da Petrobras fundada em 2008 para atuar nas áreas de álcool e biodiesel. Afinal, só há dois compradores nesses leilões: a Petrobras e a Refap S/A (associação entre a estatal e a Repsol YPF).

    “Não entramos no primeiro lote e vencemos o seguinte com o preço de R$ 1.815 por tonelada, suficiente para remunerar nosso custo variável, que era a meta deste leilão”, respondeu Alan Kardec Pinto, presidente da PBio. Ele comentou que o leilão estava superofertado. O primeiro lote tinha oferta de mais que o dobro do volume a negociar. O lote vencido pela estatal, de 63 mil m³, quase 20% do total, contava com o quádruplo de éster colocado em disputa.

    A PBio conta com três unidades de produção, em Candeias-BA, Quixadá-CE e Montes Claros-MG, com total de capacidade para 115 mil m³ (ou 115 milhões de litros) anuais. Opera também a unidade experimental de Guamaré-RN, para 57 mil t/ano. Quixadá e Montes Claros estão em desengargalamento para elevar o total instalado para 172 milhões de litros durante 2009, chegando a 195 milhões, em 2010. “Precisávamos dessa contratação para manter as unidades funcionando à plena carga para certificar a produção perante o licenciador e também para desengargalar as linhas”, justificou Kardec.

    Química e Derivados, Munir Aboissa, Proprietário da Aboissa Óleos Vegetais, Biocombustíveis

    Munir Aboissa: preço da glicerina não paga o custo do

    Problema de origem – Algumas dificuldades do setor decorrem do planejamento inicial do Programa Nacional de Produção de Biodiesel. A ideia era obter o éster por meio de um parque descentralizado de pequenas usinas que seriam alimentadas por óleos vegetais extraídos por pequenos produtores rurais e pelo abundante etanol de cana. Seria uma forma de viabilizar economicamente a política federal de assentamentos. Isso também considerava o uso de múltiplas fontes de ácidos graxos, como mamona, dendê e outras oleaginosas. Na prática, não foi o que aconteceu.

    “Mais de noventa por cento da produção de biodiesel no Brasil usa a soja”, afirmou o empresário Munir Aboissa, proprietário da Aboissa Óleos Vegetais. Ele empreendeu recentemente uma viagem de sete mil quilômetros pelo Centro-Oeste brasileiro, a principal região produtora de soja e biodiesel, na qual visitou mais de cinquenta fábricas. “Os dez por cento restantes são feitos de algodão, óleo recuperado de cozinhas e sebo animal”, acrescentou. Ele explica a preferência pelo fato de a soja ser o único cultivo capaz de oferecer óleo suficiente para a produção do éster de boa qualidade sem provocar desequilíbrios.

    Na atual situação de mercado, o biodiesel é uma alternativa de mercado razoável. “Sem considerar a glicerina, o spread entre o óleo de soja e o biodiesel é razoável, considerando os R$ 2,60 estipulados como teto no leilão da ANP”, calculou. No fim de fevereiro, o óleo de soja bruto em Mato Grosso estava cotado a R$ 1,60 por kg.


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