Química

15 de março de 2010

Biodiesel – Falta de medidas para conter os efeitos das sazonalidades ameaça a liderança nos biocombustíveis

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Publicado por: Denis Cardoso
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    o mesmo tempo em que o ambicioso projeto de extração de petróleo na camada pré-sal desperta a atenção mundial, paradoxalmente cresce a percepção de que o Brasil é um dos poucos países capazes de atender com vigor à crescente demanda por energéticos mais limpos que os combustíveis fósseis. Celeiro agrícola mundial, com 150 milhões de hectares disponíveis para a agricultura, o país apresenta vantagens na produção de álcool, biodiesel e outros itens da chamada “segunda geração dos biocombustíveis”, como o etanol fabricado com resíduos agrícolas mediante a aplicação de enzimas. Além da terra, dispõe de geografia favorável, altas taxas de luminosidade, disponibilidade hídrica e regularidade de chuvas, colocando os produtores brasileiros entre os mais competitivos do planeta.

    Antes de alçar voos mais consistentes no mercado externo, entretanto, o setor de biocombustíveis ainda precisa fazer alguns importantes ajustes. No segmento sucroalcooleiro, ainda persiste o problema de oferta de álcool e a consequente disparada dos preços do combustível na entressafra, indicando a urgência de criar mecanismos para conter as oscilações de mercado, a exemplo da formação de estoques reguladores. Para o presidente da consultoria Datagro, Plínio Nastari, não existe volatilidade da oferta de álcool no Brasil, mas volatilidade de preço. “O fato de não termos um mercado futuro para o etanol, como existe com o açúcar, facilita essa volatilidade. Há concentração de oferta na safra, fazendo com que o preço caia, e redução na entressafra, puxando os preços para cima”, explicou.

    Na safra passada, a falta de etanol no mercado brasileiro provocou forte aceleração nos preços do álcool hidratado (vendido diretamente nas bombas dos postos, que carrega entre 6% e 8% de água), refletindo a diminuição de oferta ocasionada pelo excesso de chuva nos canaviais, fato que atrapalhou a colheita e prejudicou a qualidade da cana. Um balanço preliminar da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) indica que os problemas climáticos nas áreas produtoras impediram a produção de 4 bilhões de litros de etanol e de 5 milhões de toneladas de açúcar na temporada passada. “A safra 2009/10 foi muito ruim. O rendimento dos canaviais foi afetado pelas chuvas intensas em todo o país”, afirmou Nastari. “Retornamos aos níveis de produção de 1991, causando grandes prejuízos para os produtores e a indústria.”

    Nos primeiros dois meses de 2010, quando o problema de desabastecimento se agravou, o litro do etanol chegou a superar os R$ 2 nas bombas de alguns locais do país, provocando a migração dos consumidores para a gasolina, combustível de maior poder calorífico, que permite rodar mais quilômetros por volume abastecido. Segundo declarações de Antonio Pádua Rodrigues, diretor-técnico da Unica, a safra de 2009 “foi atípica, porque, no primeiro semestre, as usinas estavam descapitalizadas e tiveram que vender etanol a qualquer preço e, no segundo semestre, não conseguiram colher a quantidade esperada de cana por causa do excesso de chuvas”.

    O governo tentou conter a disparada de preços reduzindo de 25% para 20% a proporção de álcool anidro adicionado à gasolina. O objetivo era aumentar a disponibilidade do combustível renovável no mercado. O resultado foi um aumento brusco da demanda por gasolina que exigiu a importação do combustível. No final das contas, quem ajustou o mercado foram os consumidores que, em grande parte, possuem carros com motores bicombustíveis e passaram a abastecer na bomba ao lado, dispensando o etanol. Somente em fevereiro deste ano, o consumo recuou para 25 milhões de litros por dia na região Centro-Sul, metade dos 50 milhões de litros do período de pico de consumo. A partir de março, com o início da nova safra nesta região, houve a consequente, porém lenta, redução do preço do etanol que voltou a ser mais vantajoso em relação à gasolina.

    Para Rodrigues, hoje é o consumidor quem determina os preços. “Assim como ele saiu do mercado quando o valor do álcool subiu, ele voltou a usar o combustível depois que a nova safra começou a tomar um ritmo mais forte.” Essa poderosa “arma” utilizada pelo consumidor só é possível graças ao surgimento, a partir de 2003, dos motores flex fuel, movidos tanto com gasolina quanto etanol, ou com mistura de ambos. A tecnologia representou o fim da dependência de um único combustível e sua frota já ultrapassou a casa das 10 milhões de unidades, segundo balanço divulgado no início de março pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Atualmente, os carros bicombustíveis representam 87% dos automóveis negociados no país.

    Estoques estratégicos – Para resolver os problemas de sazonalidade, a estocagem do álcool é apontada pelo governo e pelas próprias usinas como uma das ferramentas mais eficazes. Neste ano, para financiar a formação desse estoque, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pretende destinar R$ 2,5 bilhões aos usineiros. Em 2009, esses recursos já haviam sido oferecidos pela instituição, mas houve pouca procura. Na época, o montante era suficiente para financiar o armazenamento de 5 bilhões de litros de combustível, equivalentes a mais de três meses de consumo. Segundo a Unica, a linha de crédito foi pouco procurada na safra passada “por conta das garantias exigidas e do curto prazo de pagamento, considerado inviável naquele momento, em virtude do agravamento da crise financeira e dos baixos preços do etanol”. No ano passado, o programa de estocagem do BNDES cobrava juros de 11,25% ao ano, com prazo de pagamento de seis meses, com dois meses de carência. Para a nova safra, a entidade representante dos usineiros reivindicou ao BNDES prazos de pagamento mais longos, juros abaixo de 11,25% ao ano e ainda solicitou ao banco que aceite o etanol como garantia real do financiamento.


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