Tecnologia Ambiental

26 de fevereiro de 2005

Aterros especiais: Oferta responsável não impede descarte em lixões

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Publicado por: Quimica e Derivados
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    Aumenta o número de aterros classe 1 no Brasil, mas a maioria dos resíduos perigosos ainda é descartada sem controle

    Química e Derivados: Aterros: Célula para resíduo classe1 da Onyx em Tremembé - primeira fase quase completa. ©QD

    Célula para resíduo classe1 da Onyx em Tremembé – primeira fase quase completa.

    Cada vez fica mais difícil, no Brasil, encontrar desculpas para escândalos ambientais como o do Aterro Mantovani, em Santo Antônio de Posse-SP, onde no período de 1974 a 1987 cerca de 326 mil toneladas de resíduos industriais, de 75 indústrias, foram descartadas indiscriminadamente, gerando a considerada pior área de contaminação do País.

    Se na época da ocorrência havia poucas alternativas corretas e impermeabilizadas para disposição, hoje o número de aterros especiais capazes de confinar o perigo contido em resíduos classe 1, embora não suficiente para toda a demanda local, é pelo menos bem maior do que a do passado.

    É claro também que só a existência de mais aterros classe 1 não deve prevenir a sociedade de novos “Mantovanis”. Na verdade, a maior parte dos resíduos industriais gerados no Brasil ainda continua a ser destinada de forma incorreta, misturada em lixões domésticos, sejam eles municipais ou clandestinos. Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre), mais de 70% do lixo industrial acaba em lugares inapropriados. “E sem uma política nacional de resíduos sólidos, cujo projeto de lei federal (do ex-deputado Emerson Kapaz) foi arquivado pelo atual governo, há poucas chances do quadro deprimente se reverter em médio prazo”, completou o diretor-executivo da Abetre, Diógenes Del Bel.

    Se não representa ainda o fim das contaminações, a maior oferta de aterros especiais revela ao menos um lado não tão atrasado do Brasil, mais viável para empresas e órgãos ambientais dispostos a cumprir a lei. Os principais centros industriais, nas regiões Sul, Sudeste e parte do Nordeste (Bahia), contam com aterros para atender a demanda legal de resíduos. Trata-se de um mercado de saída rápida, com muito resíduo no aguardo para ser destinado e com necessidades de ampliação de áreas para recebimento nas regiões mais industrializadas.

    E é em virtude dessa demanda reprimida que entra em operação, em Franco da Rocha-SP, entre abril e maio de 2005, o novo aterro classe 1 da Essencis Soluções Ambientais, joint-venture da construtora Camargo Corrêa com a francesa Suez. Dentro da sua Central de Tratamento de Resíduos (CTR) Caieiras, uma imensa área verde de 3,5 milhões de metros quadrados, distante 15 quilômetros de São Paulo, a empresa reservou 70 mil m2 em um platô para construir o aterro. Projeto com vida útil aproximada de 30 anos, com capacidade total para confinar o volume de 600 mil m3 de resíduos perigosos, o aterro está com o primeiro dos 17 módulos pronto para receber lixo de clientes que até já deixaram alguns lotes de resíduos no armazém temporário da CTR Caieiras.

    Química e Derivados: Aterros: aterro14. ©QDDe acordo com o diretor regional da Essencis, Luciano Amaral, ao receber a licença de operação para dar partida ao aterro, o que deve ocorrer em abril, a empresa soluciona dois gargalos. O primeiro deles é parar de mandar resíduos de clientes paulistas para a CTR Curitiba, no Paraná, onde o grupo já possui aterro classe 1 desde 2000, oriundo da Cavo (da controladora Camargo Corrêa). Só em 2004 foram para lá 5 mil toneladas. Logicamente eram cargas contratadas com desvantagem comercial em relação aos dois aterros classe 1 de São Paulo (Onyx Sasa, de Tremembé, e Ecosistema, de São José dos Campos), por precisar incluir o custo do frete referente aos 400 km até a capital paranaense.

    Química e Derivados: Aterros: Del Bel - sem política nacional fica difícil resolver o passivo. ©QD Foto - Cuca Jorge

    Del Bel – sem política nacional fica difícil resolver o passivo.

    O outro gargalo operacional diz respeito ao mercado de gerenciamento ambiental como um todo. Isso porque o Estado paulista, maior gerador disparado de resíduos no país, não contava com aterros especiais suficientes e, pior ainda, na região mais importante, a Grande São Paulo, não havia até então nenhum para resíduos perigosos classe 1.

    O mais importante em operação no Estado, o Onyx Sasa, do grupo francês Veolia, fica em Tremembé, pequena cidade próxima a Campos do Jordão, distante 200 quilômetros da capital paulista. O outro, o Ecosistema, apesar de um pouco mais próximo, a cerca de 120 km, só possui autorização para destinar resíduos do Vale do Paraíba e já está no fim de sua vida útil.

    É no combate a esses gargalos que o novo aterro da Essencis encontra seu trunfo. Além de se tornar mais competitivo com relação a sua própria opção paranaense, os ganhos com relação aos dois aterros concorrentes são evidentes, sobretudo para atender a demanda de regiões altamente industrializadas, como o ABC paulista e o eixo de Campinas-São Paulo, com custos de frete bem menores.

    Junte-se a isso o fato de naturalmente haver um gap considerável entre oferta e procura por aterros classe 1 em São Paulo, e as boas perspectivas do novo empreendimento ficam completas. De acordo com Luciano Amaral, a estimativa é vender a disposição de 30 mil toneladas de resíduos por ano.

    Célula única – A concepção do aterro da Essencis segue a tendência mundial de células únicas para disposição, em detrimento às ultrapassadas tecnologias por valas (usadas pelo Ecosistema). No primeiro caso, há um aproveitamento melhor do terreno por se fazer uso de uma imensa escavação, em vez de se abrir várias valas menores, que deixam espaços inaproveitados entre si, formando uma espécie de “cemitério”.

    Aliás, o aterro Onyx Sasa, em Tremembé, também relativamente novo (foi inaugurado em dezembro de 2000), possui a mesma linha tecnológica por células (ver QD-387, pág.10).


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