Produtos Químicos e Especialidades

26 de maio de 2014

Artigo Técnico: Literatura e história com arsênico e o CCA

Mais artigos por »
Publicado por: Quimica e Derivados
+(reset)-
Compartilhe esta página

    Ennio Lepage

    O arsênio é um semimetal (metaloide) que ocorre naturalmente na crosta terrestre e sua presença em mais de 200 minerais lhe garante a vigésima posição entre os elementos mais abundantes na natureza. O composto mais comum do arsênio é o trióxido de arsênio (arsênico). Entre seus usos podem ser destacados os seguintes:

    • produção de inseticidas;
    • ponto de partida para a produção de vários produtos farmacêuticos e veterinários;
    • agente descolorante para vidros e esmaltes;
    • ponto de partida para ligas de arsênio e semicondutores;
    • homeopatia, onde é conhecido por seu nome latino Arsenicum album;
    • produção de preservativos de madeira.

    Química e Derivados, COMPARAÇÃO-DA-EMISSÃO-DE-CO2-ENTRE-A-MADEIRA-TRATADA-E-A-MADEIRA-IN-NATURAEntretanto, seu nome se fixou no imaginário popular por sua presença em acontecimentos históricos e pela extraordinária repercussão obtida por dois mestres da literatura de ficção policial, além de uma peça teatral criada na década de 30 do século passado.

    Historicamente, o arsênico ganhou repercussão com o clã dos Bórgia. O primeiro deles, o papa Alexandre VI e seus filhos César e Lucrécia, para alcançarem seus escusos objetivos usavam uma mistura chamada “La Cantarella”, um destilado, cuja fórmula é desconhecida até hoje, que por suposição conteria arsênico, fósforo, cobre, além de produtos de origem animal. Mas, apesar de toda essa incerteza, ficou estabelecida, de forma indelével a identidade: Bórgias ? arsênico ? veneno. É evidente que essa identidade contaminou os fatos literários e de teatro que se seguiram.

    Sir Arthur Conan Doyle, por meio do seu personagem mundialmente conhecido, Sherlock Holmes, que além de viciado em cocaína, apreciador de ópio e seus derivados era, segundo seu criador, um exímio especialista em venenos e alcaloides, fato que o ajudou a desvendar a autoria de diversos casos de envenenamento por arsênico.

    Outra inglesa, Agatha Christie, que até hoje em termos de vendagem de livros só é superada pela Bíblia e por William Shakespeare, também se notabilizou por seus contos envolvendo envenenamento. Porém, essa autora diversificou um pouco mais os seus casos, pois, com sua criatividade, usou produtos de origem vegetal muito mais letais do que o arsênico como, por exemplo, a estricnina (obtida de uma árvore) e a ricina (do óleo de rícino e para a qual não há antídoto). A propósito, isto deve ser o anticlímax para uma boa parte dos naturalistas, principalmente os de gabinete, que julgam que tudo o que procede na natureza deve servir de exemplo para seres humanos. Nessa esteira de fatos, na década de 30 do século passado, o teatrólogo norte-americano Joseph Kisselring escreveu a comédia “Arsênico e Alfazema” que até hoje é sucesso de bilheteria, nos locais onde é exibida.

    Resumindo: um fato histórico não confirmado e centenas de obras de pura ficção condenaram a palavra arsênico, criando em torno dela um clima de mistério, perigo e morte.

    Por outro lado, não é muito divulgado que, no século XIX, Samuel Hahnemann, ao lançar o seu “Organon de la Medicina”(1810), estabeleceu as bases da homeopatia, método terapêutico que alcançou grande sucesso, principalmente na Europa e que por meio de sua filosofia do similia similibus curantur, ou seja, o semelhante será curado pelo semelhante, adotou um arsenal de medicamentos usados em doses extremamente pequenas. Entre esses produtos, encontram-se várias substâncias consideradas letais como: Arsenicum album, Cicuta virosa (a mesma cicuta que matou Sócrates), Lachesis mutus (veneno da surucucu), Naja tripudians (veneno da naja), entre outros.

    O que se pretendeu demonstrar nas linhas acima não é nenhuma novidade, apenas que a diferença entre o veneno e o remédio é somente a dose. Em outras palavras, o uso de produtos químicos é perfeitamente administrável, desde que sejam tomadas as precauções necessárias.

    Como foi dito anteriormente, por ser o vigésimo elemento mais comum sobre a Terra, é grande a probabilidade de a vida animal se defrontar com o arsênio durante sua permanência no planeta. Assim, por segurança, a quantidade tolerável de arsênio que pode ser ingerida por seres humanos foi determinada com precisão, pois ao contrário de outros pesticidas, ocorre naturalmente e pode se apresentar em níveis muito elevados na água potável de algumas cidades dos Estados Unidos, Bangladesh, Japão, Argentina e Taiwan.

    Pesquisas demonstraram que é seguro ingerir arsênio em doses inferiores a 2 µg/kg de massa corporal (OMS – Organização Mundial de Saúde) ou 3 µg/kg de massa corporal (Padrões Australianos para Alimentos – CSIRO).

    O preservativo de madeira CCA (Arseniato de Cobre Cromatado) foi desenvolvido na Índia em 1933 e até hoje é responsável pelo tratamento de mais de 500 milhões de m³ de madeira, estimativa feita pela SWPA (Associação de Preservadores de Madeira da África do Sul). Como confere alta durabilidade (50 anos ou mais) à madeira por ele impregnada, esse preservativo é um dos grandes responsáveis pela limpeza de nossa atmosfera, ao se considerar a redução das emissões de CO2 que seriam liberadas pelo apodrecimento da madeira, na razão de 1.126 kg de CO2/m³, como se vê no esquema 1.


    Página 1 de 3123

    Compartilhe esta página







      0 Comentários


      Seja o primeiro a comentar!


      Deixe uma resposta

      O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *