Petróleo & Energia

12 de dezembro de 2013

Analitica Latin America: Shale gas tem desafios a enfrentar

Mais artigos por »
Publicado por: Antonio C. Santomauro
+(reset)-
Compartilhe esta página
    Química e Derivados, Jailson de Andrade

    Jailson de Andrade

    A

    edição deste ano do congresso da Analítica incluiu um bloco dedicado ao tema da Energia. Dele fez parte a palestra de Jailson de Andrade, docente da Universidade Federal da Bahia e coordenador do INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) na área de Energia e Ambiente. Ele falou sobre as perspectivas e os desafios do shale gas (gás de xisto).

    Desafios, lembrou o professor, que não se restringem ao âmbito da sustentabilidade ambiental. Há também questionamentos referentes à intensidade de uso, no fraturamento das rochas, de um insumo muito valioso: a água. “Pode ser até necessário usar mais água que aquela destinada à agricultura”, ponderou.

    O professor citou ainda desafios logísticos, pois em muitos casos serão necessárias enormes frotas de caminhões, tanto para levar água para os locais de exploração quanto para deles retirar o gás. No Brasil, esse desafio se torna ainda mais complexo, em razão das notórias deficiências na infraestrutura de transportes do país: “Uma empresa já fez algumas prospecções na bacia do São Francisco e viu que nenhuma ponte que conduzia às áreas onde haveria exploração suportaria o peso das sondas necessárias à perfuração”, comentou Andrade.

    Mas o gás de xisto, ele destacou, pode ser também sinônimo de oportunidades, por exemplo, para a indústria química, pois a água utilizada no processo é tratada com inúmeros aditivos: agentes para gel, biocidas, controladores de pH, inibidores de corrosão, redutores de fricção, entre outros. “Um agente de gelificação muito usado é o guar, proveniente da Índia: os Estados Unidos hoje compram praticamente toda a sua produção e o preço já subiu cerca de quinze vezes”, observou.

    Estudar é preciso – Quaisquer que sejam os desafios por ele propostos, o shale gas inevitavelmente deverá ser mais debatido no Brasil, como enfatizou Andrade. Afinal, ele hoje fundamenta uma realidade já bem consolidada em outras regiões. Sua exploração contribuiu até mesmo para reverter uma expectativa, existente há alguns anos, da diminuição da participação dos combustíveis fósseis na matriz energética mundial; essa participação até aumentou: era de aproximadamente 75% em 2003, e hoje supera a marca de 81%.

    Atualmente, especificou o professor, estatísticas mostram que a China – com 36,1 trilhões de m3 –, é o país com as maiores reservas de gás de xisto. O Brasil aparece no décimo posto desse ranking. Aqui já há comprovadamente reservas de gás de xisto da ordem de 7,35 trilhões de m3, disponíveis nas bacias hidrográficas do Paraná, Solimões e Amazonas, Bacia do Recôncavo e na Bacia do São Francisco (norte da Bahia e sul de Minas Gerais).

    Mas, no Brasil, observou Andrade, ainda não há praticamente nenhum estudo destinado à melhor compreensão dos diversos impactos – ambientais e geológicos, entre outros – da exploração desse combustível.

    A licitação já anunciada pelo governo federal, ainda para este ano, de concessão para exploração do shale gas, pode precipitar o desenvolvimento desses estudos. Aliás, isso já começou. Segundo o professor, mediante um processo de mobilização iniciado no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, foi elaborado e entregue à Finep – Agência Brasileira de Inovação, em ritmo acelerado, o desenho de um projeto para estudos envolvendo cinco INCTs, das áreas de geofísica, águas, energia e ambiente e instrumentação analítica.

    Mesmo nos locais onde os estudos estão mais avançados ainda não há consenso sobre a conveniência ou não da exploração desse combustível. “Até nos Estados Unidos, onde a exploração e o uso de shale gas estão em pleno desenvolvimento, ele não é uma unanimidade – recentemente, o estado norte-americano de Vermont aprovou uma lei proibindo a técnica de fraturamento”, ressaltou o professor.

    Aqui no Brasil, ele destacou, foi enviada à presidência da República uma carta, assinada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), solicitando a suspensão da licitação já prevista pelo governo. Aparentemente, essas entidades ainda não obtiveram resposta sobre tal pedido.

    Imediatismo na política – Indagado pelo público, o professor abordou também as perspectivas do etanol na matriz energética nacional. Sem se referir especificamente a esse combustível, ele criticou a ausência, no Brasil, de políticas de longo prazo. Há alguns anos, o país anunciou a intenção de liderar o mercado mundial dos biocombustíveis, mas hoje produz menos etanol que os norte-americanos, enquanto a Europa produz mais biodiesel que o Brasil. Surgiu então o pré-sal e o etanol desapareceu do discurso governamental. “Agora, fala-se em shale gas em um país que tem enormes problemas de logística”, comentou.

    Também participante da mesa-redonda, Hélcio Martins Lamonica, pesquisador do CTC (Centro de Tecnologia Canavieira), afirmou crer na necessidade de uso, no Brasil, de todas as fontes de energia: “Somente as fontes renováveis não suprirão toda a demanda, mas talvez elas possam diminuir a participação das não renováveis na matriz energética”, argumentou.

    Mas, para ele, o uso de combustíveis qualificados como ambientalmente mais sustentáveis, como o etanol de segunda geração, hoje já colocado como possibilidade para a indústria canavieira, “só será viável se a sociedade se conscientizar sobre o tema e aceitar pagar mais por isso, como já acontece na Alemanha”.

    Mediador da mesa-redonda, Wokimar Teixeira Garcia, também do CTC, disse que estudos iniciais mostram não haver, aparentemente, na comparação entre etanol de primeira e segunda geração, diferenças capazes de exigir sistemas específicos de armazenamento para cada um. “Seria inviável para os produtores manter sistemas de armazenamento diferentes para cada um deles”, finalizou Garcia.



    Compartilhe esta página







      0 Comentários


      Seja o primeiro a comentar!


      Deixe uma resposta

      O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


      ""
      1
      Newsletter

      Receba artigos, notícias e novidades do mercado gratuitamente em seu email.

      Nomeseu nome
      Áreas de Interesseselecione uma ou mais áreas de interesse
      Home - Próximo Destino Orlando
      ­
       Suas informações nunca serão compartilhadas com terceiros
      Previous
      Next