Petróleo & Energia

15 de fevereiro de 2011

Ambiente – Desconhecimento sobre biota aumenta os riscos do pré-sal

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Publicado por: Marcelo Furtado
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    Química e Derivados, Ambiente, Biota, Riscos do Pré-Sal

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    stá tudo muito bom. Com as reservas estimadas do pré-sal, o Brasil vai entrar em uma nova era na exploração de petróleo e gás em águas profundas e tem a promessa de se tornar um dos cinco maiores players mundiais, dobrando sua produção para mais de 4 milhões de barris por dia em 2020. E melhor ainda: essas camadas ultraprofundas contam com reservas de um óleo leve, de melhor valor de mercado, com potencial de consolidar a autossuficiência nacional. Até aí, são só maravilhas e apontar qualquer ponto negativo da fase de prosperidade que se avizinha pode soar como antinacional.

    Mas vale o exercício da crítica: será que essa euforia com os petrodólares não está deixando o país um pouco cego às consequências que uma aposta firme no combustível fóssil não renovável pode acarretar? Isso sem entrar no mérito econômico, no que diz respeito aos grandes investimentos necessários para a exploração e para o risco de desindustrialização advindo do possível retorno à vocação histórica nacional para a “monocultura”. Se ficarmos apenas no aspecto ambiental, a lista de riscos a que estamos sujeitos na era do pré-sal não deve ser de maneira alguma desprezada. Pelo contrário, merece atenção especial.

    Química e Derivados, Ambiente, Biota, Pré-Sal, Estimativas de Entradas Anuais

    Grafico 1: Estimativas de entradas anuais de petróleo e derivados nos oceanos (global) – Clique para ampliar

    Os perigos ao ambiente permeiam toda a atividade petrolífera e já são de conhecimento da comunidade técnica e até mesmo do grande público, que infelizmente se acostumou a acompanhar grandes vazamentos pelos oceanos e cuja memória está ainda fresca pelo maior deles, o ocorrido em um poço da British Petroleum no Golfo do México-EUA, em 2010. Mas uma característica do risco específico da exploração nas camadas do pré-sal brasileiro tem passado desapercebida e está sendo muito pouco discutida: a falta de conhecimento científico sobre a biota das zonas ultraprofundas do Oceano Atlântico Sul, onde se situam os 150 mil quilômetros quadrados de zona de interesse para a Petrobras, entre o litoral de Santa Catarina e do Espírito Santo.

    “Se você me perguntar o que é impactado, principalmente nas zonas profundas do oceano (de até 3 mil metros de lâmina d’água), eu vou ter que ser sincero e lhe dizer que o Brasil não tem condições de responder a esse importante questionamento”, afirmou o professor Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP). Coordenador do laboratório de manejo, ecologia e conservação marinha do instituto, este considerado o principal do país no estudo dos oceanos, Turra revela que há pouquíssimas amostras em águas profundas na pesquisa brasileira e que, de forma geral, essas zonas são um lugar desconhecido. E isso ao contrário do Atlântico Norte, onde países desenvolvidos como Estados Unidos e Canadá contam com centros de pesquisa avançados que produziram ao longo dos anos farta literatura técnica útil para proteger os biomas daqueles locais.

    Química e Derivados, Alexander Turra, Instituto Oceanográfico IOUSP, águas profundas, Riscos do Pré-Sal

    Turra: país não sabe o que pode ser impactado nas zonas profundas

    “Esse é sem dúvida o principal gargalo ambiental da exploração do pré-sal: promover uma atividade de alto impacto no escuro, visto que não temos condição técnica de dizer o que existe lá embaixo e qual a real importância desse bioma na cadeia alimentar e na vida marinha em geral”, disse Turra. Segundo ele, ao contrário do conhecimento mineral que existe sobre as zonas ultraprofundas do oceano brasileiro (que por sinal possibilitaram as descobertas do pré-sal), as únicas informações existentes em termos biológicos são pontuais e sem nenhuma força para criar uma base de dados confiável para se fazer um levantamento de impacto ambiental ou propor ações mitigadoras ou compensatórias.

    Uma luz no fundo do mar – A urgência de se obter dados e informações técnicas sobre essas áreas profundas, em decorrência do pré-sal, já começa a contagiar o poder público e a própria Petrobras, que tem interesse em conhecer melhor as regiões até mesmo para conseguir mais facilmente licenças ambientais para exploração (esta ausência de informações, porém, não impediu a estatal de obter licença para extrair petróleo e gás no campo de pré-sal de Tupi, em um teste de longa duração que passou a escala piloto-comercial de 100 mil barris/dia no final de 2010).

    Um exemplo da nova preocupação é o fato de o Instituto Oceanográfico da USP ter finalmente conseguido comprar um navio de pesquisa, visto que o seu antigo, o Professor Besnard, está há anos parado por problemas técnicos. No segundo semestre, chega o navio Alfa Crucis, obtido por meio de financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “A principal justificativa para convencer a fundação foi a necessidade de conhecer as zonas onde o pré-sal vai ser explorado no litoral paulista”, disse.


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