26 de março de 2005

Agronegócio: Seca frustra safra e deixa dívidas no Sul

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Publicado por: Fernando C. de Castro
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    Química e Derivados: Agronegócio: Marzola - crise no campoafeta cidades. ©QD Foto - Divulgação

    Marzola – crise no campoafeta cidades.

    A indústria de insumos químicos terá dificuldades para cobrar a dívida dos agricultores gaúchos e do oeste catarinense relativas às vendas de produtos usados para o plantio do último verão. Eles enfrentam graves dificuldades financeiras por conta da maior estiagem da região nos últimos 62 anos. O presidente do Sindicato da Indústria de Adubos do Rio Grande do Sul, Torvaldo Antonio Marzolla Filho, diante da crise, reivindica a liberação imediata de R$ 2,5 bilhões pelo governo federal na forma da compra antecipada da safra de 2006, pois 2005 já é considerado ano perdido para o setor primário na região. “O agronegócio é a loco-motiva verde do país. É quem puxa a balança comercial brasileira. Se a crise se agravar, o problema vai refletir nas cidades”, adverte o empresário. De acordo com ele, a situação mais preocupante é a dos pequenos e médios agricultores.

    Um documento com o pedido de antecipação da compra da safra foi entregue ao presidente Lula, em visita ao norte gaúcho e ao oeste catarinense, na segunda quinzena de março. No entanto, o pleito está longe da contrapartida ofertada pelo governante. Ele prometeu liberar R$ 800 milhões a título de financiamento do plantio de inverno e pequena monta por família de pequenos agricultores sem seguro da safra. Além disso, o governo prometeu fornecer sementes para o plantio das culturas de inverno, acenou com concessão de créditos de até R$ 6 mil para pequenos agricultores e alguns recursos advindos do Pronaf (Programa Na-cional de Agricultura Familiar).

    O aprofundamento da crise do setor primário gaúcho, por conta da seca, coincidiu com a realização da Expodireto, evento realizado pela Cooperativa Tritícola Mista Alto Jacuí (Cotrijal) de 7 a 11 de março, em Não Me Toque, pequena cidade da região de Passo Fundo-RS, encravada na chamada Zona da Produção. Trata-se de uma feira agrícola realizada há seis anos, com a exposição da última geração em máquinas agrícolas, insumos químicos e recursos biotecnológicos.

    Química e Derivados: Agronegócio: Melhoramento genético permite aumentar produtividade. ©QD Foto - Fernando de Castro

    Melhoramento genético permite aumentar produtividade.

    Segundo Daniel Vinicius Teixeira, assessor agronômico da Manah em Passo Fundo, um dos maiores fabri-cantes de fertilizantes do país, empresa pertencente ao grupo Bunge, haverá muita inadimplência e junto com ela a retração dos negócios. A Manah já projeta para 2005 uma queda de 30% no consumo de fertilizantes somente no Rio Grande do Sul, sem contar Santa Catarina e Paraná, os outros dois estados prejudicados pela seca em proporções menores. Para o plantio de inverno, avaliou Teixeira, a maioria dos agricultores aproveitará a adubação residual da safra de verão e só vai comprar aqueles produtos necessários à correção do solo. “Já existe pressão para que as empresas alonguem os prazos”, reconheceu Teixeira. No ano passado, o mercado de adubos e nutrientes de forma geral, nas lavouras do Rio Grande do Sul, absorveu aproximadamente 2,8 milhões de toneladas. A agricultura do país como um todo consumiu 18 milhões de toneladas em fertilizantes em 2004, conforme o técnico da Manah. “O mercado levará muito tempo para se movimentar de novo”, diz.

    Química e Derivados: Agronegócio: Pagli - recuperação só acontecerá em 3 anos. ©QD Foto - Fernando de Castro

    Pagli – recuperação só acontecerá em 3 anos.

    A crise da agricultura gaúcha deverá refletir também no segmento de defen-sivos agrícolas. O gerente para a região sul da divisão de agroquímicos da Basf, Ivan Pagli, com base de operações em Londrina, Paraná, tem percorrido os três estados do Sul e acompanha de perto a crise provocada pela estiagem.

    “Estamos diante de uma catástrofe. Os agricultores gaúchos vão levar de dois a três anos para se recuperarem. De qualquer forma, só teremos condições de conhecer o tamanho exato desse desastre quando a soja for colhida em maio”, assinalou Pagli em sua passagem pela Expodireto.

    O presidente da Expodireto, Nei Mânica, sem meias palavras, foi cate-górico quando perguntado qual será a fórmula encontrada para os agricultores pagarem seus compromissos ao final do primeiro trimestre do ano, quando vencem as promissórias com indústrias e bancos. “Faremos um esforço conjunto. A indústria de agroquímicos terá de entender a nossa situação”, diz.

    Por entender a situação, Mânica está avi-sando que em maio, quando ocorrer a colheita do principal produto agrícola, a soja, os agricultores, em geral, não terá dinheiro para pagar as despesas contraídas durante o plantio na última primavera. “Vamos pedir a renegociação das dívidas”, avisou.

    A preocupação de representantes da indústria química pode ser traduzida em números. Estimativas preliminares indicavam uma produção total de 18,7 milhões de toneladas somente na região Sul. Com a seca a previsão de quebra é de 50% nas áreas afetadas, que correspondem a 60% da região. Por isso, deixarão de ser produzidas 12,4 milhões de to-neladas de grãos. Em recente visita à região da seca o presidente da Conab, Jacinto Ferreira, considerou o quadro irreversível. A Conab divulgou a revisão da estimativa de safra nacional, que foi reduzida de 131,9 milhões de toneladas para 124,9 milhões.

    Insumos químicos – Apesar do ambiente de crise, a indústria química direcionada se fez pre-sente na Expodireto para apresentar seus produtos tradicionais e lançamentos. No estande da Basf, uma das principais atrações, foi o laboratório com amostras das pragas de final de ciclo, entre as quais a ferrugem asiática, principal doença fúngica da soja, presente em praticamente todo o território nacional. Microscópios especiais foram instalados no local e sob orientação dos técnicos da empresa os agricultores conheceram de perto as lesões ocasionadas pelo fungo e como os fungicidas combatem a enfermidade.


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