Economia

10 de maio de 2016

Abiquim – 2016: Ano em que o Brasil precisará decidir se quer uma indústria forte

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Publicado por: Quimica e Derivados
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    Texto: Carlos Fadigas e Fernando Figueiredo

    Diante do flagrante esgotamento do modelo de crescimento econômico lastreado no consumo, que esbarra no limite de endividamento das famílias e nas restrições ao crédito, o fortalecimento da indústria brasileira é o caminho mais inteligente e óbvio para o país deixar para trás a crise que nos paralisa, prevista para se prolongar pelo menos até 2016. Com participação reduzida pela metade na formação do PIB nacional em uma década e meia – hoje restrita a pouco mais de 10% –, a indústria de transformação necessita de medidas de política industrial capazes de minimizar os gaps competitivos exógenos, ligados principalmente ao chamado custo Brasil. Esses setores poderão atuar como locomotiva da recuperação econômica.

    Química e Derivados, Carlos Fadigas é presidente do Conselho Diretor da Abiquim

    Carlos Fadigas é presidente do Conselho Diretor da Abiquim

    A indústria química e petroquímica está presente no início de pelo menos 90% das cadeias industriais, capilaridade que permite a ela, quando robustecida, ser uma das grandes alavancas de crescimento da economia como um todo. No Brasil, esse setor representa um faturamento anual superior a US$ 150 bilhões, é responsável pela geração de mais de 2 milhões de empregos diretos e indiretos, pela arrecadação de R$ 36 bilhões em impostos ao ano e pelo fornecimento a cerca de 15 mil fábricas distribuídas pelo país.

    Para ser um player importante nesse setor em dimensão internacional, um país precisa contar com matéria-prima farta e competitiva e sólido mercado doméstico, além de uma indústria de transformação capaz de interligar com competência a produção ao consumo. A maior parte dos países do Oriente Médio, por exemplo, sempre foi rica em matéria-prima, mas por carecer dos demais fatores, consegue agregar pouco valor ao petróleo cujo destino é o mercado de exportação.

    Já o Brasil, com um mercado historicamente forte e que aumentou nos últimos anos pela melhoria de renda das classes mais baixas, construiu com sacrifício um parque industrial relativamente moderno e grande, além de contar com pessoal técnico e especializado, cuja remuneração média é o dobro da média nacional. No entanto, a matéria-prima que nos faltava para fechar a equação se tornou agora promessa de abundância, em razão das reservas de hidrocarbonetos contidas no Pré-Sal. Promessa não, realidade, uma vez que mais de 700 mil barris/dia de óleo já são extraídos dessas camadas profundas.

    Se o futuro próximo é francamente favorável, o presente ainda impõe grandes desafios ao setor para transformar tanto potencial em realidade. Nesse sentido, um balanço de 2015 apresenta mais obstáculos do que conquistas, muito embora o otimismo nos leve a crer que o país está chegando neste final de ano a um passo de tomar decisões que vão permitir destravar o caminho das oportunidades.

    No momento, está sendo negociada com a Petrobras a renovação de um contrato de fornecimento de nafta, ainda a principal matéria-prima utilizada pelo setor no Brasil, com duração de longo prazo e condições aceitáveis. Diferentemente do que o setor buscava, o novo contrato de matéria-prima, nos moldes em que está sendo negociado, não será um fator de competitividade, exatamente por estar atrelado à referência ARA, uma das mais caras do mundo. Por outro lado, foi o contrato possível de ser negociado, dado o cenário atual da Petrobras e do país.

    O ideal seria, ao contrário, uma melhora das condições atuais, já que perdura nosso déficit de competitividade frente à indústria norte-americana, beneficiada pelos baixos preços da energia e do gás praticados nos Estados Unidos, Canadá e México – não por acaso, a Braskem está inaugurando agora um investimento de mais de US$ 5 bilhões para produção de polietilenos no México. Mas só a eliminação das incertezas sobre o provisionamento de nafta que dificultavam o planejamento e paralisavam os investimentos em nosso setor já representa um alívio, pelo qual merece crédito o Governo Federal, em especial o ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, pelo esforço incansável em alcançar um acordo possível para ambas as partes.

    A isso se soma o ajuste do câmbio, que trouxe o dólar para um patamar mais realista e criou condições mais favoráveis para as nossas exportações, além de conter as importações, que chegaram a deter 36% de participação em nosso mercado e recuaram para menos de 30%. Esse movimento permitiu compensar em parte a retração do mercado doméstico e a perda de receita decorrente da diminuição dos preços globais dos químicos e petroquímicos, mas seus efeitos benéficos são limitados, já que as exportações representam pouco mais de 15% da produção nacional.

    Para 2016, teremos uma agenda importantíssima a cumprir. Passa pela vigência plena de uma política para o uso do gás natural como matéria-prima, discutida amplamente e transformada em lei em 2009, mas até hoje aguardando regulamentação. Enquanto isso, a destinação do gás para esse fim continua a ser tratada como se fosse para energia – que de forma geral, aliás, já era uma das mais caras do mundo e ainda teve seus custos elevados em 2015.


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