Laboratório e Análises

4 de janeiro de 2016

Ambiente: Software determina risco gerado pela degradação de substâncias

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Publicado por: Marcelo Fairbanks
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    Ferramentas tecnológicas permitem melhorar o estudo e a compreensão do ciclo de vida das moléculas químicas lançadas no meio ambiente. Muito se sabe sobre as substâncias classificadas como perigosas, existindo até normas para sua utilização e disposição final. Porém, vários produtos de uso corriqueiro, como ingredientes de domissanitários e cosméticos, podem apresentar um impacto negativo do ponto de vista ambiental durante a sua decomposição, comprometendo a sustentabilidade desses negócios.

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    Maurea: USEtox prevê riscos que surgem depois do consumo

    “Um biocida, por exemplo, usado em um desinfetante doméstico, quando visto isoladamente não representa risco algum, mas se somarmos as quantidades usadas por todas as residências de uma cidade podemos ter uma ideia do volume lançado nos esgotos, que acabam indo para as estações de tratamento e depois para o ambiente”, alertou Maurea Flynn, diretora técnica da EcoAdvisor Associados. Ela citou o caso do triclosan, insumo usado há décadas em diversos produtos de consumo e considerado seguro do ponto de vista toxicológico. “A degradação desse produto gera dioxinas e furanos, substâncias perigosas para a saúde humana e ao ambiente”, alertou.

    A EcoAdvisor aplica a ferramenta USEtox, desenvolvida por especialistas de vários países reunidos na Força-Tarefa em Impactos Toxicológicos da Unep-Setac Life Cycle Initiative. “Aproveitando a ampla base de dados existente sobre as substâncias químicas e sua degradação no ambiente, essa ferramenta permite prever o caminho desses produtos no ar, água e solo, avaliando o que acontecerá com elas”, explicou Marcus Da Matta, CEO da consultoria.

    Na Europa, o USEtox é recomendado para as indústrias avaliarem o destino final de seus produtos, especialmente agrotóxicos, domissanitários, cosméticos e farmacêuticos. “A ferramenta prevê o risco com base na concentração da substância pós-consumo, considerando sua venda anual, e na sua degradação”, comentou Maurea.

    A ferramenta permite uma visão panorâmica do problema de cada substância, podendo recomendar a sua substituição em uma formulação, com o objetivo de evitar problemas futuros, um aspecto de sustentabilidade. Quando a análise revelar uma situação crítica, será preciso realizar estudos mais específicos. “Antigamente, a indústria química se preocupava em produzir moléculas muito estáveis, ou seja, que não se degradam facilmente, mas isso acabou se revelando um problema ambiental, e essa atitude está em reavaliação”, comentou a especialista. “Antes, não existiam técnicas analíticas capazes de detectar a presença de substâncias em concentrações ínfimas no ambiente, hoje essas técnicas existem e estão sendo usadas.”

    Quando se pretende classificar os perigos de uma substância, a recomendação é aplicar o Globally Harmonized System of Classification and Labelling of Chemicals (GHS), que indicará a categoria e risco e a devida rotulagem. “O USEtox, por sua vez, permite prever o risco na etapa de pós-consumo dessas substâncias e seus resíduos de degradação no ambiente”, explicou Maurea.

    Segundo Da Matta, a evolução dos estudos com essas substâncias de preocupação emergente – presentes em baixíssimas concentrações e anteriormente ignoradas – podem apontar a necessidade de atualizar as estações de tratamento de efluentes. “Isso se mostra necessário nas regiões de maior adensamento populacional, porque várias substâncias, como os hormônios das pílulas anticoncepcionais, atravessam incólumes os tratamentos convencionais”, afirmou. Ele citou a proposta defendida pela professora Gabriela Umbuzeiro, da Unicamp, de se determinar o grau de potabilidade da água pela presença de substâncias indicadoras de fácil identificação, como a cafeína e o bisfenol-A.

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    A EcoAdvisor está assessorando tecnicamente o governo federal na implementação do Registro de Emissão e Transferência de Poluentes (RETP), um sistema de avaliação e informação sobre poluentes que segue metodologia e objetivos internacionais, estabelecidos desde 2000. “O RETP permitirá mapear os pontos de emissão e lançamentos de substâncias problemáticas para o solo, água e ar; o USEtox poderá ser usado para avaliar os dados do RETP, apontando os cenários de risco de forma bem mais ampla”, considerou Maurea.

    Até 2016, o Brasil deverá ter o RETP implantado para 153 poluentes, conjunto harmonizado com a short list da Europa (OCDE). A lista completa inclui mais de 500 substâncias. O site do Ministério do Meio Ambiente (www.mma.gov.br) contém várias informações sobre o programa e sua documentação.

    A aplicação de ferramentas tecnológicas, a exemplo do USEtox, pode contribuir para elevar a qualidade dos debates em segurança no trabalho e proteção ao meio ambiente no país. “Tanto as empresas quanto os órgãos públicos terão acesso a uma base científica de informações para produzir questionamentos e debates mais sólidos, com maior possibilidade de gerar resultados positivos para todos”, comentou Maurea. Segundo os diretores da EcoAdvisor, a procura por informação de qualidade por parte de indústrias e laboratórios é crescente. “Sempre é melhor conhecer os problemas o mais cedo possível.”



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